Porque é que a Leapmotor não “arranca” em Portugal?

Leapmotor Portugal

A presença da Leapmotor em Portugal tem vindo a evoluir de forma discreta, refletindo mais uma fase de desenvolvimento da marca, do que um problema específico do mercado nacional.

Embora tenha iniciado oficialmente a sua atividade em 2025, até ao final de maio de 2026, a construtora chinesa registou apenas pouco mais de 100 unidades, ficando atrás de outras marcas chinesas que chegaram mais recentemente ao nosso país.

Porém, esta observação exige um contexto: a Leapmotor não está a falhar apenas em Portugal; está, ainda, a construir uma posição a nível europeu.

Uma marca em construção

É importante começar por enquadrar a estratégia europeia da marca.

Em 2025, a Leapmotor não desembarcou na Europa “em força”, ao contrário do que se verificou com várias marcas chinesas. A sua prioridade passou por construir notoriedade, afirmar a identidade da marca e estabelecer bases sólidas para um crescimento sustentável no continente.

A própria empresa assumiu esta estratégia, dedicando 2025 à consolidação das suas bases operacionais, com uma rede comercial ainda reduzida e uma oferta de modelos limitada. O objetivo passou por construir notoriedade de forma gradual e preparar o terreno para uma expansão sustentada.

Os números ajudam a compreender esta realidade. Em 2025, a Leapmotor vendeu cerca de 35 000 veículos na Europa, tendo criado uma rede com mais de 800 pontos de venda. Embora sejam resultados positivos para uma marca que está a dar os primeiros passos no continente, ainda estão longe da escala e da maturidade comercial dos principais intervenientes no mercado europeu.

Três razões para relativizar os números

Esta fase inicial é amplificada por três condicionantes principais.

O primeiro é estrutural: a rede de distribuição. Embora beneficie da infraestrutura da Stellantis, a integração da Leapmotor não é imediata nem homogénea. A adaptação da rede existente é progressiva, traduzindo-se em menor visibilidade comercial, limitações de stock e menor capacidade de resposta.

Em contraste, marcas como a BYD ou a MG entraram no mercado com estratégias mais agressivas, focadas no volume de vendas e na notoriedade desde o início.

O segundo fator está relacionado com o produto ou, mais concretamente, com a forma como este é percecionado. O Leapmotor C10 posiciona-se num dos segmentos mais competitivos do mercado, o dos SUV familiares BEV e PHEV. Embora tenha um preço competitivo, em Portugal a proposta não se destaca de forma suficientemente clara face a alternativas já consolidadas.

Ainda assim, a presença da marca não se esgota neste modelo. A Leapmotor comercializa também o T03, um citadino elétrico orientado para a mobilidade urbana, incluindo uma versão comercial de dois lugares. Está ainda a preparar o alargamento da gama, com novos modelos: em 2026 já recebeu o B10e BEV e PHEV e, ainda este ano, está previsto o lançamento dos futuros B03X e B05.

Esta diversificação mostra que não há desinvestimento da marca. Pelo contrário, existe uma tentativa clara de cobrir diferentes segmentos, desde o urbano e acessível até ao familiar, ainda que de forma gradual e sem uma proposta claramente diferenciadora em cada segmento.

O terceiro fator é o momento industrial e logístico. Nesta fase inicial, a maioria dos modelos vendidos na Europa são importados da China. A transição para produção europeia, nomeadamente em Espanha (Saragoça e Madrid, aproveitando instalações da Stellantis) está em curso, mas ainda não totalmente consolidada. Os prazos conhecidos apontam o início da produção do B10 no final de 2026 em Saragoça e de mais três modelos em 2027; para Madrid, o processo de restruturação em curso aponta para meados de 2028.

Leapmotor C10 100% elétrico Bateria Pro

O papel da Stellantis

A integração da Leapmotor no universo Stellantis levanta, inevitavelmente, a questão da concorrência interna. Contudo, essa concorrência parece existir mais no plano teórico do que na realidade operacional do grupo franco-italo-americano

É verdade que a Stellantis já dispõe de várias marcas com ofertas elétricas próprias, entre as quais Peugeot, Opel, Citroën ou Fiat, o que origina alguma sobreposição de segmentos.

No entanto, a Leapmotor desempenha uma função distinta. Mais do que uma simples marca adicional, surge como um ativo estratégico que permite ao grupo acelerar o acesso a tecnologias desenvolvidas na China, reduzir custos de desenvolvimento e aumentar a competitividade dos seus futuros produtos.

Na prática, existe uma hierarquia clara na distribuição de recursos e prioridades. As marcas históricas do grupo continuam a concentrar a maior parte do investimento, comercial e industrial, enquanto a expansão da Leapmotor decorre de forma gradual e controlada.

Ao mesmo tempo, a tecnologia desenvolvida pela fabricante chinesa começa a encontrar caminho para futuros modelos europeus, reforçando a ideia de que o seu valor para a Stellantis ultrapassa, largamente, o volume de vendas que consegue gerar por si própria.

Esta realidade ajuda a explicar porque razão a Leapmotor não tem sido tratada como uma concorrente direta das restantes marcas do grupo. Pelo contrário, o seu papel parece ser o de complementar a oferta existente e, sobretudo, contribuir para a transformação tecnológica de uma indústria europeia que enfrenta uma concorrência chinesa cada vez mais intensa.

Para lá dos números em Portugal

A avaliação do desempenho da Leapmotor em Portugal deve ser feita num contexto mais amplo. Embora tenha registado um crescimento na Europa, a marca continua longe da dimensão comercial alcançada por alguns dos seus principais concorrentes chineses, num momento em que a concorrência no mercado europeu está a intensificar-se rapidamente.

Ao mesmo tempo, é importante salientar que a distribuição de recursos na Europa não é uniforme. Naturalmente, mercados como a França, a Alemanha ou a Itália concentram uma parte substancial do investimento, da atenção estratégica e dos esforços comerciais dos fabricantes. Portugal, devido à sua dimensão, tende a assumir um papel secundário nas fases iniciais de expansão.

A própria história da Leapmotor ajuda a compreender este posicionamento.

Fundada em 2015, a empresa desenvolveu-se no contexto da rápida eletrificação do mercado chinês, tendo-se destacado pela aposta em tecnologia própria. A entrada da Stellantis no seu capital e a criação de uma empresa conjunta dedicada à expansão internacional marcaram o início de uma nova fase, transformando uma empresa tecnológica emergente chinesa numa marca com ambições globais.

Atualmente, a Leapmotor encontra-se numa fase de institucionalização. Já não é apenas uma promessa emergente, mas também ainda não alcançou o nível de notoriedade e maturidade comercial dos fabricantes mais consolidados. A marca beneficia da escala industrial e do apoio financeiro da Stellantis, mas continua a construir a sua identidade junto dos consumidores europeus.

Por isso, os resultados observados em Portugal devem ser vistos como parte de um processo mais vasto. Em vez de sinalizarem um fracasso comercial, refletem uma marca que continua a consolidar a sua presença num dos mercados automóveis mais exigentes do mundo.

A verdadeira teste à estratégia da Leapmotor será a sua capacidade de transformar a atual base tecnológica e industrial em notoriedade, confiança e volume de vendas nos próximos anos.

Autor

  • Rogério Lopes é jornalista e editor de Radar Automóvel. Com uma ligação de longa data ao setor automóvel, é especializado em gestão de frotas e mobilidade empresarial. Mantém contacto regular com gestores de frota e profissionais do setor, pois considera ser essa a forma certa de obter e partilhar conhecimento e as melhores práticas do mercado.

    Autor de variadíssimos textos e análises sobre o impacto das novas tecnologias e da fiscalidade nas escolhas das empresas, segue com atenção o setor automóvel em Portugal e no mundo, com especial interesse pela mobilidade sustentável.

    Sempre que está ao volante, privilegia a eficiência e a segurança, princípios que defende tanto na estrada como nos seus textos.

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