Depois do XC60 híbrido plug-in, volto agora a um produto da marca sueca, mas desta vez 100% elétrico: o Volvo EX40.
A Volvo tem vindo a posicionar-se de forma muito clara no que se refere à transição energética. Para quem, como eu, vê o automóvel como parte de um ecossistema de mobilidade com implicações operacionais, financeiras e até culturais, estes ensaios são mais do que simples testes. São exercícios de previsão do futuro.
No entanto, confesso que receava o risco de, ao escrever sobre mais um Volvo, acabar por ser conhecido pelos leitores como o “Sr. Volvo”. Por isso, fiquei aliviado ao saber que o meu colega e amigo Armando Rodrigues já equilibrou as contas com o seu ensaio sobre o Volvo ES90.
Sobriedade com intenção
O EX40 é, na prática, a evolução natural do XC40 Recharge. Mantém as proporções compactas e a linguagem visual que já conhecemos, mas nesta versão Black Edition há um reforço evidente da presença.
O preto Onyx metalizado domina por completo a primeira impressão. Consoante a luz, revelam-se subtis reflexos azulados que lhe conferem profundidade.
Embora não procure chamar a atenção de forma óbvia, também não passa despercebido.
As jantes de 20 polegadas com acabamento brilhante, os elementos escurecidos e a assinatura luminosa em LED contribuem para uma imagem coesa e moderna. Há aqui uma consistência estética que, sendo discreta, transmite confiança.
É um tipo de abordagem que valoriza qualquer automóvel, ainda para mais sendo um modelo premium.
Suavidade com lógica elétrica
Ao volante, a experiência é imediatamente familiar para quem já conduziu um veículo elétrico, mas com o toque de afinação característico da Volvo.
O motor elétrico, com uma potência aproximada de 204 cv, proporciona uma entrega de potência linear, previsível e suficiente para o uso diário. Não se verifica qualquer dramatismo nas acelerações, mas é evidente a competência.
A condução na cidade é particularmente agradável. A experiência foi marcada por um ambiente de silêncio, fluidez e, em determinados momentos, quase terapêutica, sobretudo para quem passa horas no trânsito.
A direção é leve, mas precisa, e o conjunto transmite uma sensação de controlo constante.
Apesar das dimensões compactas, o que mais se destaca no uso urbano é a facilidade de manobra. Em espaços mais restritos, como parques de estacionamento ou vias com acessos limitados, o Volvo EX40 manobra-se com facilidade, sem necessidade de esforço ou sobressaltos.
Este automóvel não desafia o condutor, mas também não o afasta da experiência de condução. O equilíbrio entre conforto e envolvimento é notável.
Quando o sistema decide por nós
Tal como já me aconteceu noutros modelos (falei disso no caso do Volvo XC 60 plug-in), notei um ligeiro atraso na resposta ao acelerar de forma muito progressiva.
A explicação para tal poderá estar relacionada com o sistema drive-by-wire. Como não existe uma ligação mecânica direta entre o pedal e o motor, a resposta é gerida eletronicamente, com o objetivo de privilegiar a suavidade e a eficiência.
Na prática, isto significa que a potência é entregue de forma mais filtrada. Em ambiente urbano faz sentido. Pode não agradar a quem procura respostas imediatas, mas está de acordo com a filosofia do carro.
Funcionalidade com identidade urbana
No habitáculo, o EX40 mantém aquilo que pode ser identificado como o ADN Volvo. Funcionalidade bem pensada, sem excessos.
Os acabamentos escuros da versão Black Edition criam um ambiente sóbrio, enquanto os painéis decorativos com inspiração urbana acrescentam um detalhe diferenciador sem cair no exagero.
O ecrã central de 9 polegadas, embora modesto em comparação com a concorrência, oferece uma fluidez e simplicidade notáveis. O sistema Android Automotive mantém-se como uma das soluções mais intuitivas no mercado.
Gostaria de reiterar uma posição já anteriormente expressa. A existência de botões físicos para alguns comandos, como a climatização, seria vantajosa. A simplicidade continua a ser uma virtude.
Pensado para o dia-a-dia
A posição de condução é confortável e bem ajustada. O espaço traseiro acomoda confortavelmente dois adultos, embora um terceiro passageiro possa enfrentar alguma limitação de espaço. Algo bastante comum neste segmento.
A bagageira, com uma capacidade aproximada de 410 litros, cumpre a função de forma satisfatória. Embora não se destaque, na prática atende às necessidades quotidianas e até de viagens familiares moderadas.
Pequenos espaços de arrumação, estrategicamente localizados, reforçam a vertente prática do habitáculo. Em contexto real, fazem a diferença.
Mais do que um urbano
Em estrada, o EX40 revela um comportamento equilibrado. A suspensão filtra de forma eficaz as irregularidades da estrada, garantindo o conforto mesmo em pisos com menos qualidade.
Confesso que, antes deste ensaio, tinha algumas reservas quanto à sua utilização fora do meio urbano. Um SUV elétrico não é um veículo todo-o-terreno e é importante manter essa noção bem presente.
Ainda assim, levei-o comigo até ao Alentejo, onde tenho casa, e decidi colocá-lo num ambiente um pouco diferente daquele para o qual parece ter sido pensado à partida.
Entre estradas secundárias e trilhos de terra batida, o Volvo EX40 acabou por me surpreender pela forma como lida com pisos irregulares. Sempre consciente do tipo de veículo que tinha em mãos, a verdade é que este nunca se mostrou desconfortável nem fora do seu elemento.
Consegui chegar sem dificuldade ao monte alentejano e até descer até à pequena praia fluvial contígua ao terreno. Não era algo que tivesse como garantido inicialmente.
O modo Off-Road confere alguma confiança adicional, ao ajustar a resposta do sistema e a gestão de tração. Não transforma o carro noutra coisa, mas acrescenta uma camada de versatilidade que, numa utilização ocasional, pode fazer a diferença.
Teoria e prática
A Volvo anuncia uma autonomia de cerca de 400 quilómetros para esta versão. Na prática, e sem preocupações excessivas com uma condução eficiente, este valor parece-me realista em utilização mista.
Durante o ensaio, registaram-se consumos médios de 16,3 kWh por 100 km em percursos urbanos e mistos, e de cerca de 18 kWh por 100 km em autoestrada.
São valores consistentes e previsíveis. Para quem precisa do carro todos os dias, isso é tão importante quanto os números absolutos.
A possibilidade de carregamento rápido até 150 kW permite recuperar energia em tempos relativamente curtos, embora a experiência dependa sempre da infraestrutura disponível.
Leitura de gestor. Onde faz sentido
O Volvo EX40 não é apenas um carro elétrico. É uma proposta pensada para um determinado tipo de utilização.
Em contexto empresarial, sobretudo em frotas urbanas ou periurbanas, faz bastante sentido. Custos operacionais mais previsíveis, imagem alinhada com políticas de sustentabilidade e utilização eficiente em cidade.
Para uso particular, será especialmente interessante para quem valoriza conforto, segurança e simplicidade, mais do que prestações puras.
Veredicto
O Volvo EX40 Black Edition não tenta reinventar o segmento. No entanto, também não falha onde realmente importa.
Sem ser um carro de excessos, é sólido, coerente e bem concebido. São características que, curiosamente, encontro com frequência nos modelos da marca que escolho e conduzo na empresa. Talvez seja por isso que estou tão à vontade quando falo da Volvo.
E, se isso faz de mim o “Sr. Volvo”, deixo essa decisão para o Armando Rodrigues e, sobretudo, para quem me lê.






















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