O papel das empresas na redução da sinistralidade rodoviária

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As empresas têm vindo a assumir um papel cada vez mais relevante na redução da sinistralidade rodoviária. Destacam-se, sobretudo, as empresas que operam grandes frotas ou que dependem intensivamente da mobilidade diária.

Para estas organizações, a segurança rodoviária deixou de ser apenas uma questão de responsabilidade social, para passar a ser também um fator económico, operacional e reputacional.

Em Portugal, os CTT destacam-se como referência em termos de segurança rodoviária, nomeadamente através da formação de condutores e da monitorização do seu comportamento ao volante. Além disso, empresas de logística como a DHL, a FedEx, a UPS, a DPD e a GLS implementam programas de prevenção, de condução defensiva e de análise de acidentes, com vista a reduzir a sinistralidade das respetivas frotas.

Nos operadores logísticos de grande dimensão, a gestão do risco rodoviário está invariavelmente integrada nos sistemas de gestão da frota. Estas soluções de controlo incluem indicadores relacionados com os modelos de condução, o consumo de combustível, os incidentes e o cumprimento das rotas, com vista à redução de comportamentos de risco e melhoria da eficiência operacional.

Este modelo de abordagem é decisivo num contexto em que a mobilidade empresarial é mais exigente e sujeita a mais controlo, quer de entidades oficiais, quer do público em geral.

À medida que as empresas procuram aumentar a sua eficiência, aumentam também as exigências relativamente a quem conduz, às rotas escolhidas e à forma como a operação é gerida no terreno

Logística, pressão de tempo e o risco da última milha

No entanto, o setor da logística enfrenta um desafio estrutural crescente: a pressão para cumprir prazos de entrega, sobretudo no que se refere à chamada “última milha”.

Este segmento, que liga os centros de distribuição aos clientes finais, tornou-se altamente fragmentado com o crescimento de pequenos operadores e trabalhadores independentes remunerados por tarefa ou por entrega.

Embora este modelo seja eficiente do ponto de vista económico e de rapidez, tende a aumentar a pressão sobre os condutores. Isso incentiva comportamentos como o excesso de velocidade, a redução de pausas e uma maior exposição ao risco rodoviário.

Em contexto urbano, onde coexistem peões, trotinetes e intenso tráfego, esta pressão pode ter um impacto direto na sinistralidade rodoviária.

Por outro lado, a última milha é também crucial para a visibilidade da marca junto do cliente final. Isto significa que qualquer falha operacional, acidente ou condução imprudente pode sair rapidamente do âmbito interno e entrar no domínio da perceção pública.

No entanto, é importante salientar que qualquer incidente, independentemente do operador responsável pela última milha, tende a refletir-se na imagem da empresa que assegurou o serviço de distribuição.

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Boas práticas de gestão de risco

Esta é uma das razões pelas quais as empresas de logística e as frotas empresariais têm vindo a reforçar os mecanismos de prevenção e controlo do risco rodoviário. Para esse efeito, recorrem à telemetria, que lhes permite analisar os comportamentos de condução e implementar políticas internas de responsabilização por infrações.

Estas ferramentas permitem identificar padrões de risco e corrigir comportamentos, para tomar decisões mais fundamentadas quanto à afetação de veículos, rotas e motoristas. Ao mesmo tempo, ajudam a transformar a segurança rodoviária numa variável concreta de gestão, deixando de ser apenas um princípio genérico.

Neste contexto, surgem várias práticas concretas adotadas pelas empresas para operacionalizar esta abordagem. A título de exemplo, podem ser referidas estratégias que combinam responsabilização e incentivo ao bom desempenho.

Entre as medidas mais comuns, contam-se a aplicação de sanções disciplinares em caso de infrações graves ou repetidas, a obrigatoriedade de formação adicional para condutores com comportamentos de risco e a definição de objetivos de segurança.

Por outro lado, algumas organizações atribuem prémios, bónus ou reconhecimento interno aos motoristas com melhores indicadores de condução. Por exemplo, o cumprimento dos limites de velocidade, a diminuição das travagens bruscas ou a ausência de acidentes.

A organização interna da mobilidade tem um impacto direto no desempenho da frota. Ao acompanhar os indicadores de condução, consumo, incidentes e rotas, uma empresa consegue reduzir desperdícios, antecipar falhas e melhorar o controlo operacional

Impacto na imagem corporativa

A sinistralidade rodoviária tem um impacto que vai para além dos custos diretos suportados pelas empresas, como as despesas com reparações, seguros ou substituição de viaturas. Tem também um impacto significativo na sua reputação, sobretudo quando estão envolvidos veículos identificados com a sua marca.

Os veículos comerciais, as carrinhas de distribuição ou os automóveis com logótipos visíveis funcionam como uma extensão da identidade corporativa.

Por conseguinte, comportamentos de condução agressiva, acidentes ou infrações graves podem afetar a percepção pública da marca e prejudicar a confiança de clientes e parceiros.

Além disso, a visibilidade da frota amplifica o efeito reputacional. Num mercado cada vez mais sensível à experiência, à confiança e à consistência operacional, a condução também transmite a cultura empresarial.

Por outro lado, o aumento da sinistralidade tem contribuído para o agravamento dos prémios do seguro da frota, o que pressiona os custos operacionais das empresas. Este efeito é particularmente sentido em setores com uma elevada intensidade de mobilidade, como a logística, a distribuição, a manutenção técnica e os serviços de assistência.

O aumento da sinistralidade tem agravado os prémios de seguro de frota, pressionando os custos operacionais, sobretudo em setores com elevada mobilidade, como logística, distribuição e serviços de assistência

Prémio Segurança Rodoviária

Distinguindo empresas e responsáveis que promovem frotas mais seguras e uma cultura de prevenção, o Prémio Segurança Rodoviária ganha relevância neste contexto.

Criado pela SEGEF, este prémio reconhece organizações que integram a segurança rodoviária nas suas práticas de gestão. Segundo José Fernando Guilherme, CEO da SEGEF, trata-se de uma distinção para entidades que assumem a segurança rodoviária como uma prioridade estratégica.

A SEGEF disponibiliza programas de auditoria, consultoria ESG e formação certificada pela DGERT, centrada na norma ISO 39001. Este enquadramento reforça a importância de processos estruturados, métricas claras e melhoria contínua na gestão do risco rodoviário.

Ao integrarem a prevenção, a formação e a auditoria, as empresas conseguem alinhar a segurança, a eficiência e a reputação numa única lógica operacional. É precisamente neste cruzamento que a segurança rodoviária ganha espaço na agenda empresarial.

Autor

  • Rogério Lopes é jornalista e editor de Radar Automóvel. Com uma ligação de longa data ao setor automóvel, é especializado em gestão de frotas e mobilidade empresarial. Mantém contacto regular com gestores de frota e profissionais do setor, pois considera ser essa a forma certa de obter e partilhar conhecimento e as melhores práticas do mercado.

    Autor de variadíssimos textos e análises sobre o impacto das novas tecnologias e da fiscalidade nas escolhas das empresas, segue com atenção o setor automóvel em Portugal e no mundo, com especial interesse pela mobilidade sustentável.

    Sempre que está ao volante, privilegia a eficiência e a segurança, princípios que defende tanto na estrada como nos seus textos.

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