A sinistralidade rodoviária continua a custar vidas, deixar feridos e gerar prejuízos avultados para as empresas portuguesas. Ainda assim, para Jorge Matias, Chairman da Cartrack Portugal, a maioria das organizações ainda não integra a segurança nas estradas nas suas rotinas de gestão, ou sequer nos seus planos estratégicos.
O responsável destaca o papel da telemática na prevenção de comportamentos de risco ao volante. Contudo, sublinha que a tecnologia deve ser acompanhada por liderança e por uma verdadeira mudança cultural nas empresas.
A entrevista decorreu no âmbito do projeto Horizonte Seguro, lançado pela Cartrack Portugal em parceria com a SEGEF Frotas. Uma iniciativa que conta com o envolvimento da Cartrack Portugal e que pretende sensibilizar as organizações para a importância de uma cultura de segurança rodoviária.
De que forma pode a tecnologia de gestão de frotas contribuir para reduzir a sinistralidade rodoviária nas empresas?
A tecnologia dá, obviamente, um contributo absolutamente decisivo para a segurança rodoviária.
Normalmente, associamos a tecnologia de gestão de frotas aos sistemas de telemática. Na verdade, as viaturas, individualmente, têm vindo a incorporar cada vez mais tecnologia de segurança, quer na segurança pessoal quer na segurança de circulação.
Mas o contributo final é, sem dúvida, dado pelos sistemas de telemática, que acrescentam mais dados e capacidade de tratamento, ao mesmo tempo que integram esses dados nos restantes sistemas de informação e gestão das frotas.
Qualquer estratégia de gestão de frotas que não considere, em primeiro lugar, a segurança rodoviária começa mal e não acaba bem, porque no topo das prioridades deverá estar sempre o combate ativo e partilhado à sinistralidade, um evento gerador de elevados custos na empresa e no ecossistema de frotas (infraestrutura, seguros, etc.) e de danos pessoais irreparáveis, incluindo a perda de vidas.
Como podem as empresas transformar os dados sobre a condução em comportamentos mais seguros ao volante?
É preciso agir sobre todas as variáveis sob controlo das empresas que tenham efeitos no comportamento de condução.
Hoje é fácil e barato ter acesso a um conjunto muito rico de informação sobre o estado dos fatores de risco dos veículos, por exemplo, a pressão dos pneus, e também sobre os comportamentos de condução.
Dados sobre velocidade, travagens bruscas, acelerações bruscas, distância do veículo da frente, uso do cinto de segurança e distrações, como a utilização de telemóveis ou o cansaço, são uma base poderosa para induzir alterações nos comportamentos de risco.
A utilização de vídeo para a deteção e alerta ao motorista em tempo real cria um sistema de informação que atua diretamente na correção de comportamentos de risco, reduzindo drasticamente o potencial de sinistros.
Os sistemas de telemática são sobretudo utilizados para a melhoria da eficiência operacional e da segurança material, mas uma pequena alteração na observação dos dados para o plano da segurança rodoviária pode reduzir riscos de sinistralidade e, assim, incrementar os indicadores de eficiência.
O papel das empresas na redução da sinistralidade rodoviária
Um risco ainda invísivel
As empresas têm verdadeira consciência do impacto humano, social e financeiro da sinistralidade rodoviária?
Acredito que, na generalidade, não. Não existe uma preocupação com a avaliação sistémica de riscos tendo em conta os meios disponíveis e as condições presentes no ecossistema. Por exemplo, o tipo de condução de terceiros, o estado das vias, da sinalização ou do clima. E também o comportamento dos seus próprios grupos de utilizadores com a natureza e a exigência das suas operações.
É uma questão de gestão reconhecidamente fundamental, mas que tarda em entrar nas rotinas diárias, a começar na gestão de topo.
O que levou a Cartrack a criar o Horizonte Seguro, promover este encontro e distinguir boas práticas através do prémio de segurança rodoviária?
O Horizonte Seguro é uma ideia do José Guilherme, sócio-gerente da SEGEF Frotas e consultor de segurança rodoviária e de gestão de frotas.
O trabalho dele nestas áreas tem merecido reconhecimento internacional, tendo já recebido prémios pelos trabalhos apresentados. A Cartrack Portugal recebeu com agrado e entusiasmo o desafio do José Guilherme para avançarmos conjuntamente com este projeto.
Este é um projeto de sensibilização e de tomada de consciência, com caráter transformador.
É um projeto em torno do qual queremos promover boas práticas de segurança rodoviária e envolver todos aqueles que a ele se juntam nessas práticas, com a obtenção concreta de resultados. Queremos que todos contribuam, de forma interativa, para a redução dos flagelos financeiro e humano que os sinistros representam no nosso país.
Os prémios simbolizam as conquistas de cada empresa nesta jornada de redução da sinistralidade.
Horizonte Seguro 2026: prevenção rodoviária deve integrar a cultura das empresas
Despertar consciências
Que resultados gostaria a Cartrack de alcançar, nos próximos anos, através desta iniciativa?
Esta iniciativa pretende despertar a gestão de topo das nossas organizações para a necessidade de incluir nos seus planos estratégicos e operacionais uma clara intenção de reduzir ou eliminar a sinistralidade rodoviária. Especialmente o seu impacto na vida humana.
Queremos reunir à volta desta ideia, e da sua premência, o máximo de organizações e, a partir deste grupo, criar uma verdadeira cultura organizacional de segurança rodoviária com efeito de contágio para toda a comunidade de utilizadores das vias rodoviárias.
É uma tarefa que, tendo em conta o seu tremendo impacto financeiro e a necessidade de preservação da vida humana, não pode deixar de ter a participação ativa de todos. E isso é algo que não tem acontecido. Nos próximos anos, gostaríamos de registar uma diminuição drástica do número de mortos e feridos nas nossas estradas. E perceber que esta iniciativa, que afinal é uma iniciativa de todos, deu um contributo valioso.
Não deverá a responsabilidade das empresas pela segurança rodoviária ir além das suas próprias frotas e envolver a sociedade? Qual poderá ser o papel da Cartrack Portugal nessa mudança?
Claro que sim. A Cartrack não pode ir muito além do que está a fazer, que é um trabalho de despertar consciências e de tentar envolver todos no caminho da redução da sinistralidade.
As empresas, diretamente e através das suas organizações corporativas (locais e nacionais), poderão e deverão colocar este tópico no topo das suas preocupações. Por exemplo, criando encontros subordinados ao tema em que se apele à presença das famílias e também das escolas.
Repito: o impacto financeiro é enorme e merece toda a atenção. Claro que os impactos nos danos pessoais e sociais não se podem medir, mas percebemos bem quais são.















