Leapmotor cresce em Portugal e prepara nova fase de expansão

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A Leapmotor começa a ganhar expressão no mercado automóvel português. Depois de um início de atividade com volumes de vendas relativamente modestos, a marca chinesa, apoiada pelo grupo Stellantis, regista uma evolução significativa das matrículas em 2026, acompanhada pela expansão da gama e por uma estratégia industrial europeia que começa a concretizar-se.

Este crescimento ocorre num momento particularmente favorável à comercialização de veículos elétricos em Portugal. No entanto, a expansão do mercado também intensifica a concorrência e coloca novos desafios aos fabricantes que procuram consolidar a sua notoriedade e presença comercial.

A questão já não se limita, por isso, à capacidade da Leapmotor para aumentar as vendas. Importa perceber se a marca tem argumentos para transformar este crescimento inicial numa posição competitiva sustentável.

Matrículas da Leapmotor em Portugal 2026

Dados: ACAP

Matrículas em alta

A evolução comercial da Leapmotor tornou-se particularmente evidente a partir de junho. Depois de matricular 440 automóveis nos primeiros cinco meses de 2026, a marca registou mais 1.033 unidades entre junho e setembro, elevando o total acumulado do ano para 1.473 matrículas de automóveis ligeiros de passageiros.

Deste total, 1.261 unidades correspondem a veículos 100% elétricos.

Em setembro, a Leapmotor matriculou 268 automóveis elétricos, tendo alcançando o oitavo lugar entre as marcas com maior volume neste segmento, de acordo com os dados fornecidos pela ACAP.

Embora estes resultados indiquem uma aceleração comercial, a dimensão percentual do crescimento deve ser interpretada tendo em conta a reduzida base de comparação. A marca continua numa fase de expansão e os volumes acumulados permanecem distantes dos principais operadores do mercado.

Ainda assim, a evolução dos últimos meses evidencia uma maior capacidade de traduzir a presença comercial em matrículas, um indicador importante para uma marca que se instalou recentemente em Portugal.

Um mercado em expansão

O crescimento da Leapmotor coincide com uma transformação significativa no mercado automóvel português.

Segundo a ACAP, foram matriculados 54.726 automóveis ligeiros de passageiros novos 100% elétricos entre janeiro e setembro de 2026, mais 49,1% face ao período homólogo. Ou seja, os veículos elétricos representaram 29% do mercado nacional de automóveis ligeiros de passageiros novos

Em setembro, a quota dos automóveis elétricos atingiu 47,7%, evidenciando a crescente importância desta motorização nas novas matrículas.

Para a Leapmotor, esta evolução representa uma oportunidade comercial. A marca dispõe de uma oferta centrada na eletrificação e procura posicionar-se através de uma relação competitiva entre preço, equipamento e tecnologia.

Contudo, o crescimento da procura não beneficia exclusivamente os novos fabricantes chineses. As marcas europeias, coreanas e norte-americanas continuam a ampliar as respetivas gamas de veículos elétricos, enquanto operadores como a BYD e a MG já conquistaram maior visibilidade e presença comercial em Portugal.

Neste cenário, o crescimento das matrículas da Leapmotor em 2026 constitui um sinal positivo da aceitação da marca. A manutenção desta trajetória dependerá da capacidade de alargar a base de clientes e, dessa forma, consolidar a sua presença comercial em Portugal.

Com 1.261 matrículas de veículos elétricos num mercado que totalizou 54.726 unidades com este tipo de motorização até setembro, a Leapmotor alcançou uma quota aproximada de 2,3%. Este resultado mostra que a marca já conquistou espaço no segmento e que existe margem para continuar a crescer.

Uma gama mais abrangente

Um dos fatores que poderá impulsionar o crescimento da Leapmotor em Portugal é a expansão da oferta para segmentos com diferentes necessidades e potencial comercial.

A gama inicial, constituída essencialmente pelo citadino elétrico T03 e pelo SUV familiar C10, limitava a capacidade da marca para responder a diferentes perfis de utilização. A chegada do B10 reforçou a presença da Leapmotor no segmento dos SUV compactos e a estratégia de expansão passa agora pelo B05 e pelo B03X.

Futuramente, o D19, um SUV de grandes dimensões com tecnologia REEV, poderá confirmar a ambição da marca de desenvolver propostas tecnologicamente mais avançadas e de posicionamento superior.

A importância desta ofensiva não reside apenas no aumento do número de modelos disponíveis. Uma gama mais abrangente permite disputar diferentes segmentos, responder a vários níveis de preço e reduzir a dependência comercial de um conjunto limitado de produtos.

No mercado português, onde o preço de aquisição continua a ser um fator importante na decisão de compra, esta diversificação poderá revelar-se particularmente relevante.

O potencial dos novos modelos dependerá, contudo, dos preços, das condições de financiamento, da disponibilidade de veículos e da capacidade da rede para assegurar assistência após a venda.

É esta combinação que determinará a competitividade efetiva da oferta, para além das características técnicas e do equipamento anunciado.

Vendas Mundiais da Leapmotor 2026

Um trunfo chamado Stellantis

A parceria com a Stellantis constitui uma vantagem estratégica para a Leapmotor. O grupo disponibiliza capacidade industrial e logística, bem como conhecimento acumulado sobre as preferências dos consumidores europeus.

Esta experiência poderá contribuir para aproximar os produtos das expectativas do mercado, desde a afinação do comportamento dinâmico e do conforto de condução até à ergonomia, aos acabamentos e à facilidade de utilização. São fatores que, além do preço, da autonomia e do equipamento, influenciam a competitividade de um automóvel.

A dimensão industrial da parceria ganhou expressão com o início da produção do B10 na fábrica da Stellantis em Saragoça, Espanha, a 16 de outubro de 2026. A Leapmotor anunciou também planos para produzir o B05 na mesma unidade, reforçando a integração da marca no sistema industrial europeu.

A produção local reduz a dependência das importações da China e poderá evitar os direitos de compensação aplicáveis aos automóveis elétricos originários desse país, desde que os veículos cumpram os critérios de origem aduaneira europeia. Poderá também facilitar o abastecimento dos concessionários e melhorar a capacidade de resposta à procura.

A integração na estrutura da Stellantis oferece à Leapmotor recursos industriais, logísticos e comerciais difíceis de desenvolver autonomamente num período tão curto. Esta estrutura inclui também uma rede de distribuição e assistência, soluções de financiamento e outros serviços associados à aquisição e utilização dos veículos.

Ainda assim, o apoio de um grande grupo automóvel não elimina os desafios de uma marca jovem. A notoriedade, a confiança dos consumidores e a qualidade da experiência comercial continuam a exigir investimento e tempo.

Porque é que a Leapmotor não “arranca” em Portugal?

Consolidar o crescimento

A evolução das matrículas em 2026 confirma que a Leapmotor está a ganhar expressão no mercado português. A expansão da gama e a chegada de novos modelos poderão reforçar esta trajetória, permitindo à marca chegar a um conjunto mais diversificado de clientes.

O potencial de crescimento beneficia de um mercado elétrico em expansão e do apoio industrial e comercial da Stellantis. Contudo, a Leapmotor terá de afirmar os seus produtos num contexto de concorrência crescente, em que fabricantes estabelecidos e novas marcas disputam os mesmos clientes.

O desafio consiste em transformar o crescimento das vendas numa presença comercial sustentada. E, para isso, a Leapmotor beneficiar da a estrutura da Stellantis na distribuição, no financiamento e nos serviços associados à aquisição e utilização dos veículos.

A competitividade dos novos modelos, a capacidade de distribuição e assistência e a confiança dos consumidores serão, assim, determinantes para consolidar uma posição mais relevante no mercado português.

 

Autor

  • Rogério Lopes

    Rogério Lopes é jornalista e editor de Radar Automóvel. Com uma ligação de longa data ao setor automóvel, é especializado em gestão de frotas e mobilidade empresarial. Mantém contacto regular com gestores de frota e profissionais do setor, pois considera ser essa a forma certa de obter e partilhar conhecimento e as melhores práticas do mercado.

    Autor de variadíssimos textos e análises sobre o impacto das novas tecnologias e da fiscalidade nas escolhas das empresas, segue com atenção o setor automóvel em Portugal e no mundo, com especial interesse pela mobilidade sustentável.

    Sempre que está ao volante, privilegia a eficiência e a segurança, princípios que defende tanto na estrada como nos seus textos.