E se um dia o seu carro começasse a conversar consigo?

inteligência artificial condução

A ideia já não pertence ao domínio da ficção. Está a acontecer uma mudança gradual, quase inconsciente, na forma como interagimos com a tecnologia.

Conversar com sistemas de Inteligência Artificial está a tornar-se um gesto banal, pedimos sugestões, esclarecemos dúvidas e geralmente ficamos satisfeitos com as respostas.

Inconscientemente ou não, há até quem procure algo mais difícil de definir, uma espécie de presença invisível que preencha os silêncios.

Está a acontecer uma transformação silenciosa, mas não neutra, ainda que julguemos que sim.

Aquela que conduz ao lugar em que a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e começa a ocupar um espaço relacional, onde as perguntas deixam de ser apenas técnicas e quem as articula espera respostas empáticas.

IA emocional

O automóvel pode vir a ser o próximo palco dessa mudança.

A evolução tecnológica já o permite. Marcas como a Mercedes-Benz, a BMW ou a Volvo deram passos firmes na integração de sistemas capazes de interações mais naturais e menos mecânicas, mais próximas de uma conversa humana.

Tudo isso, graças à Inteligência Artificial generativa, que introduziu fluidez, contexto e capacidade de adaptação.

No entanto, até agora, essa relação continua a ser essencialmente funcional. O condutor pede e o sistema responde.

O que começa a emergir é algo diferente. Um novo passo, impulsionado pela chamada Computação Afetiva, uma área da Inteligência Artificial que procura reconhecer, interpretar e até simular emoções humanas.

Mais do que responder, o sistema tenta compreender. Mais do que executar, procura ajustar-se ao estado de quem conduz.

Da utilidade à dependência

O que se antevê é um automóvel que antecipa necessidades, sugere opções e reage ao que o rodeia, adotando uma interação com o condutor quase emocional.

O automóvel já avisa sobre a autonomia antes de ser questionado, recomenda uma pausa ao detetar sinais de fadiga, sugere trajetos com base nos padrões de utilização e até propõe desvios em caso de trânsito intenso, acidentes ou estradas cortadas.

Como um co-piloto invisível, moldado por dados e rotinas, vai aprendendo e ajustando-se ao longo do tempo.

É precisamente aqui que a questão ganha profundidade.

Porque, o sistema precisa de observar, registar rotinas, interpretar comportamentos e inferir estados de espírito. Quanto mais útil se torna para o utilizador, mais íntimo é o conhecimento que acumula sobre a sua vida.

A fronteira entre assistência e monitorização torna-se, assim, menos evidente.

A ideia de companhia tecnológica passa a implicar exposição. E, até certo ponto, também aceitação.

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O risco de confiar

Começa a haver uma mudança subtil na forma como escolhemos e decidimos.

Se o automóvel sugere, antecipa e orienta de forma contínua, o condutor começa a delegar sem se aperceber. Pequenas decisões deixam de ser tomadas de forma consciente.

Embora o conforto aumente, a autonomia humana corre o risco de diminuir, não por imposição, mas por habituação progressiva.

Esta ambiguidade foi explorada no cinema em 1968. Em 2001: Odisseia no Espaço, o HAL 9000 não era apenas um sistema de apoio. Era uma presença que falava, interpretava e decidia. O desconforto não vinha da sua capacidade técnica, mas da confiança quase total que inspirava.

A questão nunca foi o que o HAL conseguia fazer, mas sim até que ponto os seres humanos deixavam de questionar. O problema surgiu quando a confiança foi quebrada e a aparente perfeição deu lugar à desconfiança.

A máquina ganha voz

No fundo, estamos perante uma transformação mais profunda do que parece.

A evolução da tecnologia e da inteligência artificial emocional pode fazer com que o automóvel assuma, aos olhos de quem o conduz, quase uma personalidade própria.

Já não seria apenas uma máquina que executa comandos, mas uma presença que reage, sugere, antecipa e, pouco a pouco, se torna parte integrante da condução e até da sua vida.

Num tempo marcado pela rapidez de resposta e pela tentação da reação imediata, o pensamento crítico tende a perder espaço. A tecnologia facilita, antecipa e sugere.

Quanto mais natural se torna essa interação, maior pode ser o risco de aceitarmos sem questionar.

Num contexto como a condução, em que a atenção, o discernimento e a capacidade de decisão continuam a ser essenciais, esta tendência não é secundária. Pode amplificar os riscos que não nascem da máquina, antes da forma como a utilizamos.

Talvez o verdadeiro desafio não esteja em fazer o carro falar, mas sim em preservar a nossa capacidade de pensar antes de reagir.

Autor

  • Rogério Lopes é jornalista e editor de Radar Automóvel. Com uma ligação de longa data ao setor automóvel, é especializado em gestão de frotas e mobilidade empresarial. Mantém contacto regular com gestores de frota e profissionais do setor, pois considera ser essa a forma certa de obter e partilhar conhecimento e as melhores práticas do mercado.

    Autor de variadíssimos textos e análises sobre o impacto das novas tecnologias e da fiscalidade nas escolhas das empresas, segue com atenção o setor automóvel em Portugal e no mundo, com especial interesse pela mobilidade sustentável.

    Sempre que está ao volante, privilegia a eficiência e a segurança, princípios que defende tanto na estrada como nos seus textos.

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