Esta conversa começou nas páginas do Radar Automóvel, por iniciativa de Rogério Lopes, que chamou a atenção para a segurança rodoviária nas frotas e para o trabalho que temos vindo a desenvolver na SEGEF FROTAS.
Na minha resposta, publicada há cerca de dois meses, argumentei que, embora positivas e necessárias, as ações avulsas não substituem um programa estruturado. A formação, a tecnologia, as campanhas e o reconhecimento de boas práticas só produzem resultados sustentados se fizerem parte de uma verdadeira função de gestão.
É importante dar agora um passo seguinte nesta reflexão.
Portugal está a discutir a sinistralidade rodoviária. Conhecemos o número de acidentes, vítimas mortais e feridos graves. Analisamos a velocidade, o álcool, a distração, os utilizadores vulneráveis e as condições das infraestruturas.
No entanto, continuamos a saber muito pouco sobre uma questão fundamental: quantos destes acidentes estão relacionados com o trabalho?
Quantos dos envolvidos conduziam para visitar um cliente, entregar uma encomenda, transportar passageiros, prestar assistência técnica ou deslocar-se entre locais de trabalho? Quantas foram atropeladas por um veículo em serviço? E quantos acidentes ocorreram no trajeto entre casa e o local de trabalho?
Enquanto esta dimensão permanecer pouco visível, uma parte muito significativa do problema continuará fora das prioridades de prevenção.
Um risco europeu ainda pouco conhecido
O Conselho Europeu de Segurança Rodoviária (ETSC) tem alertado para a dimensão e a medição insuficiente da sinistralidade rodoviária relacionada com o trabalho.
De acordo com um relatório europeu recente, os dados continuam fragmentados, as definições variam entre os diferentes países e, em muitos casos, os registos policiais, laborais e empresariais não estão interligados.
Nos países que conseguem apresentar informação, a proporção de mortes rodoviárias relacionadas com o trabalho varia significativamente, refletindo não só realidades diferentes, como também diferentes critérios e capacidades de recolha de dados.
O próprio ETSC estima que esta realidade possa representar até 40% das mortes nas estradas europeias, embora reconheça que o número exato é desconhecido.
Em Portugal, a Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT) é responsável pela recolha de informações sobre acidentes de trabalho, ao passo que a informação rodoviária é tratada por outras entidades.
Sem uma análise integrada e pública, é difícil determinar a verdadeira dimensão do risco, identificar padrões e direcionar medidas que possam salvar mais vidas.
O papel das empresas na redução da sinistralidade rodoviária
As empresas não são apenas parte do problema
As organizações que colocam diariamente veículos na estrada estão naturalmente expostas a riscos. No entanto, também têm uma capacidade de prevenção que não existe ao nível do condutor isolado.
As empresas podem selecionar veículos mais seguros, planear rotas, ajustar horários, reduzir a pressão operacional, monitorizar os tempos de condução, garantir a manutenção, analisar os dados de telemetria, formar condutores e chefias, investigar acidentes e acompanhar comportamentos de risco.
Além disso, podem estabelecer objetivos, medir resultados e corrigir decisões. Em suma, podem agir antes de um acidente ocorrer.
É precisamente por isso que as frotas devem ser vistas como verdadeiros laboratórios de segurança rodoviária. Estão expostas ao risco, têm capacidade para recolher informação e podem aplicar medidas de forma organizada a centenas ou milhares de deslocações.
Quando uma medida é eficaz numa frota, os seus efeitos ultrapassam a empresa. Os condutores profissionais ou os colaboradores que adotam hábitos mais seguros transportam esses comportamentos para todas as suas deslocações.
Um veículo mais seguro não só protege os seus ocupantes, como também peões, ciclistas, motociclistas e outros utilizadores da estrada.
O país precisa de aprender com as suas frotas
Em Portugal, há empresas que já desenvolvem programas, utilizam tecnologia, formam os seus trabalhadores, analisam acidentes e obtêm melhorias.
No entanto, a maior parte desse conhecimento permanece dentro das organizações.
São conhecidas poucas práticas, resultados e comparações. As empresas tendem a divulgar os seus objetivos ambientais, nomeadamente a eletrificação das frotas e as reduções das emissões, mas raramente partilham indicadores de segurança rodoviária.
Esta ausência tem várias consequências. Por um lado, impede que outras organizações aprendam com quem já avançou neste domínio. Dificulta a criação de referências nacionais. Reduz o reconhecimento dos gestores que investem seriamente na prevenção. Além disso, mantém a segurança rodoviária numa posição secundária dentro da sustentabilidade empresarial.
É necessário passar de uma cultura de silêncio para uma cultura de aprendizagem.
Isso não significa expor informação sensível nem procurar culpados. Significa partilhar metodologias, dificuldades, medidas eficazes e resultados comprovados.
Medir, reconhecer e multiplicar
O primeiro passo deve ser melhorar a informação. Portugal beneficiaria de uma definição clara do conceito de acidente rodoviário relacionado com o trabalho, bem como de uma ligação mais eficaz entre os dados das autoridades rodoviárias, dos serviços de segurança e saúde no trabalho, das seguradoras e das organizações.
Em segundo lugar, é necessário integrar o risco rodoviário nas avaliações de risco profissional e na gestão corrente das empresas. A condução em serviço não pode ser tratada como uma atividade externa à organização apenas porque decorre na via pública.
O terceiro passo é reconhecer e divulgar as boas práticas. Os bons exemplos não devem servir apenas para premiar quem os desenvolveu. Devem ser transformados em conhecimento útil para todo o tecido empresarial.
Com o objetivo de dar continuidade a esta reflexão e de transformar a discussão em aprendizagem partilhada, a iniciativa Horizonte Seguro, da responsabilidade da SEGEF FROTAS e da Cartrack Portugal, realizará, no dia 20 de outubro, em Alcobaça, o 3.º Encontro de Segurança Rodoviária nas Frotas, bem como a cerimónia de entrega do Prémio Horizonte Seguro.
Este encontro reunirá empresas, especialistas e entidades para discutir problemas e soluções. O prémio visa identificar e distinguir organizações e gestores que transformem a segurança rodoviária numa prática de gestão efetiva.
Trata-se de dois momentos complementares: um debate sobre o que ainda falta fazer e uma demonstração de que já existem organizações dispostas a fazer a diferença.
Uma responsabilidade que começa dentro da organização
Em 2024, Portugal registou 38.037 acidentes com vítimas, dos quais resultaram 618 vítimas mortais e 2.626 feridos graves, segundo os dados consolidados da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR).
Estes números, por si só, não permitem identificar toda a dimensão laboral da sinistralidade. No entanto, mostram a urgência de mobilizar todos os intervenientes com capacidade de prevenção.
As empresas não substituem o Estado, a fiscalização, a engenharia rodoviária ou a responsabilidade individual. No entanto, também não podem considerar que tudo o que acontece na estrada está fora do seu controlo.
Ao definir horários impossíveis, ao tolerar o uso do telemóvel, ao ignorar sinais de fadiga, ao não analisar acidentes ou ao premiar apenas a rapidez, a organização está a influenciar o risco. Ao fazer o contrário, está a proteger os trabalhadores e toda a comunidade.
As frotas portuguesas têm o potencial de se tornarem uma das forças mais importantes na prevenção rodoviária a nível nacional. Para tal, é necessário conhecer melhor o problema, valorizar quem já está a agir e transformar boas práticas isoladas num movimento coletivo.
Porque o risco rodoviário laboral não termina à porta da empresa. E a responsabilidade da empresa também não.
Fontes de referência:
- Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR), Dados consolidados de sinistralidade rodoviária em 2024;
- European Transport Safety Council (ETSC), PIN Flash 49 — Tapping the potential for reducing work-related road deaths and injuries, 2025;
- European Transport Safety Council (ETSC), “PRAISE — Preventing Road Accidents and Injuries for the Safety of Employees”.













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