A indústria automóvel está novamente perante um risco que se julgava controlado. Depois do choque vivido durante a pandemia da Covid-19, quando a escassez de semicondutores expôs a dependência crítica de fornecedores externos, um novo fator começa a pressionar toda a cadeia de valor: a explosão da inteligência artificial e a corrida global à memória RAM.
O problema não é inteiramente novo, mas ganhou uma dimensão inédita nos últimos dois anos. A rápida expansão de centros de dados dedicados à Inteligência Artificial está a absorver uma parte crescente da produção mundial de memória, desviando recursos que até agora alimentavam setores como o automóvel, a eletrónica de consumo e as telecomunicações.
Por isso, não é por acaso que diversos analistas alertam que esta reconfiguração do mercado poderá traduzir-se numa nova crise de abastecimento já a partir de meados da década.
Da pandemia à geopolítica: uma dependência estrutural
Entre 2020 e 2023, o setor automóvel sofreu uma das maiores disrupções da sua história recente.
Fábricas encerradas, linhas de produção paradas e veículos entregues sem equipamentos essenciais tornaram evidente a fragilidade de uma indústria altamente globalizada. A concentração da produção de semicondutores na Ásia, combinada com ruturas logísticas e decisões estratégicas que privilegiaram outros setores, deixou marcas profundas.
E, desde então, apesar de tudo o que aconteceu, pouco mudou na essência do problema.
As tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China, a instabilidade em várias regiões produtoras e as políticas industriais cada vez mais protecionistas tornaram o fornecimento de componentes eletrónicos um assunto estratégico.
E, como explicamos de seguida, a memória RAM surge como o próximo ponto de estrangulamento, numa fase de forte crescimento da procura global.
A Inteligência Artificial está a redefinir prioridades
A ascensão da Inteligência Artificial Generativa está a alterar o equilíbrio da indústria dos semicondutores.
Empresas tecnológicas e operadores de computação em nuvem estão a investir somas sem precedentes em infraestruturas especializadas, muitas vezes designadas como “fábricas de IA”. Estes centros dependem fortemente de grandes quantidades de memória de alto desempenho para treinar e operar modelos cada vez mais complexos.
De acordo com o The Wall Street Journal, os data centers poderão absorver mais de 70% da produção global de memória de alto desempenho até 2026, uma pressão que já está a provocar escassez de chips DRAM e, sobretudo, a chamada HBM (High Bandwidth Memory) tornaram-se os produtos mais valiosos do mercado, levando os fabricantes a priorizar os segmentos mais rentáveis.
Esta estratégia tem um efeito colateral claro: menor disponibilidade e preços mais elevados para outros setores. Dados do banco de investimento UBS apontam para duplicações de preço em determinados tipos de DRAM, um cenário que poderá prolongar-se até ao final da década.
A corrida global à inteligência artificial está a desviar a maioria da produção mundial de memória, colocando a indústria automóvel numa posição de risco semelhante à vivida durante a pandemia
O automóvel como um grande consumidor de memória
Durante anos, o automóvel foi visto como um cliente secundário da indústria da memória. Essa perceção deixou de corresponder à realidade. O veículo moderno transformou-se num verdadeiro computador sobre rodas, com dezenas de unidades eletrónicas responsáveis por gerir desde o motor até aos sistemas de entretenimento e segurança.
A fabricante norte-americana Micron sintetizou esta evolução de forma emblemática ao afirmar que um automóvel atual necessita de mais memória do que um foguete espacial.
Em média, um veículo já integrava cerca de 90 gigabytes de memória em 2023, um valor que deverá triplicar até 2026. Nos modelos de gama alta, as previsões apontam para capacidades que poderão atingir vários terabytes até ao final da década.
Sistemas de infoentretenimento cada vez mais sofisticados, ecrãs de grandes dimensões e plataformas digitais atualizáveis por software explicam parte deste crescimento. Marcas como BYD, XPeng ou OMODA já integram quantidades de memória comparáveis às de computadores pessoais, mas muitos outros construtores seguem a mesma trajetória.
ADAS e condução autónoma aceleram a pressão
O maior salto no consumo de memória vem, no entanto, dos sistemas avançados de assistência à condução.
Câmaras de alta resolução, radares, sensores ultrassónicos e sistemas Lidar geram volumes massivos de dados que têm de ser processados em tempo real. Para responder a estas exigências, os computadores automóveis recorrem a arquiteturas cada vez mais próximas das utilizadas em servidores.
Empresas como a Samsung desenvolveram módulos de memória específicos para aplicações automóveis, enquanto a Tesla equipa os seus sistemas de condução assistida com dezenas de gigabytes de RAM. Esta evolução aproxima o setor automóvel da lógica de um data center, aumentando a concorrência direta pelos mesmos recursos.
O automóvel moderno já consome mais memória do que um foguete espacial, e essa dependência tecnológica poderá traduzir-se em preços mais elevados e manutenções mais caras para o consumidor
Custos mais elevados para marcas e consumidores
Esta pressão surge num momento delicado para os fabricantes.
O custo direto da memória num automóvel pode variar entre algumas dezenas e mais de uma centena de euros por unidade. Embora estes valores pareçam modestos isoladamente, representam um impacto significativo quando aplicados a grandes volumes de produção, num setor onde as margens são cada vez mais reduzidas.
Os analistas da S&P Global Mobility alertam que a escassez de memória poderá tornar-se crítica já a partir deste ano de 2026, com aumentos de preços superiores a 100% em determinados cenários.
Logo, marcas fortemente dependentes de eletrónica embarcada, tanto novas como tradicionais, estão entre as mais expostas.
Para o consumidor final, as consequências deste facto são claras. O preço de aquisição dos veículos tenderá a subir, mas o impacto prolonga-se ao longo do tempo.
Sistemas mais complexos significam também manutenções mais dispendiosas, substituição de componentes eletrónicos caros e maior dependência de software proprietário.
A transição para veículos cada vez mais digitais poderá, assim, agravar o custo total de utilização, numa altura em que o poder de compra já se encontra pressionado pela inflação e pela incerteza económica.
Um aviso que ecoa do passado recente
A crise dos semicondutores durante a pandemia deixou uma lição clara: a indústria automóvel é extremamente vulnerável a choques externos.
A nova corrida global à memória RAM demonstra que essa fragilidade persiste. Sem uma diversificação efetiva da cadeia de abastecimento e sem estratégias de longo prazo, o setor arrisca-se a enfrentar uma nova vaga de perturbações, com efeitos diretos na produção, nos preços e na confiança dos consumidores.
O futuro do automóvel depende cada vez mais de chips invisíveis ao condutor, mas decisivos para o funcionamento do veículo. A questão já não é saber se haverá impacto, mas quando e com que intensidade ele se fará sentir.
















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