O ponto de partida para este ensaio foi simples: perceber, na prática, o custo de circular com o automóvel Bi-Fuel a GPL mais acessível do mercado português.
Esse carro é o Dacia Sandero. Mas fomos um pouco mais longe e optámos por algo com mais estilo e conforto do que a versão base: o Sandero Stepway equipado com a nova motorização ECO-G 120, que promete mais eficiência e uma experiência de condução mais dinâmica. E também mais confortável, pelo menos em cidade, já que a versão ensaiada está equipada com caixa automática.
Ao longo de mais de 500 quilómetros, maioritariamente em utilização mista entre cidade e percursos mais rápidos, ficou claro que esta evolução cumpre aquilo que promete.
Mas, afinal, quanto custa isto em euros?
Evolução subtil, mas relevante
O recém-renovado Sandero mantém a sua filosofia pragmática. Ainda assim, mostra-se mais competente em vários aspetos essenciais.
Visualmente, as alterações são discretas, mas suficientes para o manter atual. A nova identidade da marca integra-se bem num conjunto que continua a privilegiar a robustez e a funcionalidade. Nesta versão Stepway, a presença sai reforçada com a habitual estética crossover. Sem exageros e com coerência no estilo.
No interior, a abordagem mantém-se prática e pragmática. O sistema de infotainment foi atualizado e responde bem no que toca à conectividade, embora pudesse oferecer mais informação relacionada com a condução e com o funcionamento do sistema Bi-Fuel, à semelhança do que já acontece em alguns híbridos. Ainda assim, a utilização é intuitiva e não exige habituação prolongada.
Conforto com alguns compromissos
O espaço nos bancos traseiros é adequado ao segmento e cumpre sem dificuldade em utilização familiar. Já a bagageira continua a ser um dos pontos fortes, mantendo uma boa capacidade mesmo com o depósito de GPL instalado no lugar do pneu suplente.
Ao volante, o Sandero Stepway continua a destacar-se pela facilidade de utilização. A posição de condução mais elevada melhora a leitura da estrada e transmite uma sensação de controlo acrescida. A boa capacidade de manobra facilita a vida em ambiente urbano e, no modelo ensaiado, a presença das câmaras frontal e traseira torna qualquer manobra de estacionamento ainda mais simples.
A suspensão, no entanto, revela alguma rigidez na absorção de irregularidades, algo que se torna mais evidente em pisos degradados. Os pneus de perfil mais baixo ajudam a explicar essa sensação, penalizando ligeiramente o conforto em troca de uma atitude mais dinâmica.
Com um custo por quilómetro significativamente inferior ao de um automóvel exclusivamente a gasolina, a solução Bi-Fuel consegue, em muitos casos, ser competitiva face a algumas motorizações eletrificadas. Sobretudo quando o utilizador depende exclusivamente de carregamento em postos públicos.

Novos argumentos dinâmicos
É, no entanto, na mecânica que esta atualização ganha maior relevância. O novo motor ECO-G 120 representa uma evolução clara face à unidade anterior. Ao longo do ensaio, notou-se uma resposta mais disponível, especialmente em situações de maior exigência. Em ultrapassagens, com o acelerador a fundo, o impulso inicial é mais convincente, transmitindo maior confiança.
A caixa automática privilegia o conforto, embora a baixas rotações revele alguma indecisão na escolha da relação ideal. Não compromete de forma significativa, mas é um comportamento que se nota numa condução mais tranquila. Em ritmos mais elevados, adapta-se melhor e acompanha a maior disponibilidade do motor.
A utilização do sistema Bi-Fuel continua a ser um dos aspetos mais bem conseguidos. A transição entre gasolina e GPL é impercetível e pode ser feita em andamento, de forma simples, através de um botão. Quando isso acontece, a informação de consumos e autonomia ajusta-se automaticamente no painel de instrumentos.
Mesmo para quem nunca utilizou GPL, o abastecimento torna-se rapidamente num gesto natural após as primeiras utilizações.
Racionalidade nos consumos
Voltando à questão inicial: quanto custa, afinal, fazer 100 quilómetros em GPL?
Num percurso misto, com cerca de 60% de utilização em GPL e 40% em gasolina, os consumos médios registados foram de 6,1 l/100 km em GPL e 5,4 l/100 km em gasolina.
Considerando o preço médio do GPL em Portugal à data da publicação deste ensaio, e com a ajuda da nossa calculadora de custo de combustível, concluímos que o custo de 100 km em GPL é de 5,98 euros, e de 10,47 euros se a mesma distância for percorrida exclusivamente a gasolina.
Para os menos familiarizados com esta tecnologia, importa referir que os dois combustíveis não funcionam em simultâneo. Ao selecionar o modo GPL, o fornecimento de gasolina é interrompido. Ainda assim, pontualmente, o sistema pode recorrer à gasolina mesmo em funcionamento a GPL, nomeadamente para controlo térmico e proteção de componentes.
A presença de dois depósitos permite ainda uma autonomia combinada mais elevada, superior a 1000 km no caso deste Sandero.
ECO-G 120: mais do que aumentar de potência
O novo motor ECO-G 120 tem por base um bloco de três cilindros com 1,2 litros de cilindrada, sobrealimentado por turbo, que debita 120 cv e cerca de 200 Nm de binário. O anterior ECO-G 100 baseava-se num bloco de 1,0 litro, também de três cilindros.
Mais do que os números, é a forma como entrega o binário que marca a diferença. A resposta surge mais cedo e de forma mais consistente, traduzindo-se numa disponibilidade superior desde regimes baixos e numa maior eficácia em situações de esforço ou recuperação.
Do ponto de vista técnico, há também um salto relevante. Este novo motor recorre a injeção direta, ao contrário do anterior ECO-G 100, que utilizava injeção indireta multiponto.
Esta evolução permite um controlo mais preciso da combustão, contribuindo para ganhos de eficiência e redução de emissões. Na prática, traduz-se em melhorias de consumo – particularmente em GPL – face à motorização anterior.
Em utilização, o funcionamento revela-se mais refinado, com níveis de ruído e vibração bem controlados para um três cilindros, ainda que sem esconder completamente a sua natureza em acelerações mais exigentes.
Proximidade ao Renault Clio
Um dos pilares desta geração continua a ser a utilização da plataforma CMF-B, a mesma que serve de base ao Renault Clio.
Esta partilha traduz-se em ganhos evidentes ao nível do comportamento dinâmico, estabilidade e equipamento de segurança, colocando o atual Sandero Stepway num patamar técnico muito mais elevado do que nas gerações anteriores.
Ainda que a afinação privilegie o conforto e a estabilidade, esta base estrutural permite-lhe uma condução mais sólida e previsível, tanto em ambiente urbano como em percursos mais rápidos.
No final, este ensaio confirma aquilo que já se suspeitava: o Sandero não é apenas o automóvel Bi-Fuel mais barato em Portugal (atualmente custa menos de 17 mil euros; versão Stepway encarece cerca de 4.000 euros), é também uma das formas mais eficientes de reduzir os custos reais de utilização no atual contexto de preços elevados dos combustíveis.
Ficha Técnica do Dacia Sandero Stepway ECO-G 120 (Bi-Fuel)
| Motor | 1.2 L (1199 cc), 3 cilindros Bi‑Fuel (Gasolina + GPL) |
|---|---|
| Transmissão | Caixa automática de 6 velocidades |
| Motor | 120 cv (90 kW) / 197 Nm |
| Aceleração | 11 segundos |
| Velocidade máxima | 180 km/h |
| Consumo combinado gasolina | 5,7 l/100 km (WLTP) |
| Consumo combinado GPL | 7,2 l/100 km (WLTP) |
| Emissões CO₂ - GPL/Gasolina | 116 g/km a 130 g/km |
| Dimensões (C × L × A) | 4.102 × 1.853 × 1.496 mm (sem retrovisores) |
| Distância Entre-eixos | 2.604 mm |
| Altura ao solo | cerca de 16 cm |
| Bagageira (5 lugares) | 372 L; até cerca de 1.152 L com bancos rebatidos |
| Pneus | 195/55 R16 |
| Peso vazio | aprox. 1249 kg (versão com automática e GPL) |
























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