Híbridos plug-in em ascensão na Europa. Porquê?

híbrido Prius Plug-in

Nos últimos anos, os veículos híbridos plug-in (PHEV) têm vindo a conquistar cada vez mais interesse entre os condutores europeus, funcionando como uma solução intermédia entre os motores de combustão tradicionais e os carros 100% elétricos.

Em 2025, as matrículas de híbridos plug-in na União Europeia atingiram cerca de 1.015.887 unidades, representando 9,4 % do total de carros novos, um aumento significativo face aos 7,2 % registados em 2024. Em Portugal, o crescimento também se fez sentir: os veículos PHEV registaram um aumento de 19,5 % em relação ao ano anterior, alcançando 33 884 unidades.

Embora os veículos elétricos puros continuem a ser o foco de muitos programas de incentivo e das metas de neutralidade carbónica da União Europeia, estes números mostram que muitos europeus estão cada vez mais a olhar com interesse para os híbridos plug-in.

Não é por acaso: há razões práticas, económicas e até psicológicas para esta preferência.

Ansiedade de autonomia e infraestrutura

Um dos principais fatores é a chamada “ansiedade de autonomia”, que muitos condutores ainda associam aos veículos elétricos puros.

A infraestrutura de carregamento, embora em expansão constante, enfrenta ainda desafios em termos de cobertura e capacidade em muitas áreas. Além disso, eventos recentes colocaram a estabilidade da rede elétrica no centro das discussões, incluindo apagões temporários e preocupações com a resiliência face a fenómenos naturais extremos ou a potenciais ataques cibernéticos.

Tudo isto torna ainda mais premente a necessidade de soluções intermédias. A própria Agência Internacional de Energia destacou que, embora as fontes renováveis e a eletrificação (incluindo veículos elétricos) estejam a crescer rapidamente, as redes elétricas globais estão a mostrar sinais de não acompanhar esse ritmo, o que pode criar “gargalos” e pontos de tensão no futuro se não houver investimentos e modernização mais rápidos.

Os híbridos plug-in respondem a essas inquietações ao combinarem um motor elétrico com um motor de combustão interna. Para o quotidiano urbano, onde a maioria dos trajetos é relativamente curta, muitos destes veículos conseguem autonomias elétricas confortáveis, frequentemente acima dos 100 quilómetros no ciclo WLTP.

Um dos exemplos é a geração mais recente de automóveis híbridos plug-in de marcas do grupo Volkswagen, bastante populares na Europa: a própria Volkswagen, Audi, Skoda, Seat e Cupra, todas com modelos PHEV que já oferecem mais de 100 km de autonomia elétrica. Mas não é um caso único.

Esta autonomia elétrica permite que grande parte das deslocações diárias possa ser feita sem recorrer ao motor a combustão, reduzindo emissões e custos com combustível quando há fácil acesso a um ponto de carregamento, seja doméstico ou no local de trabalho. Ao mesmo tempo, a presença do motor de combustão garante tranquilidade em viagens mais longas ou em zonas sem cobertura de carregamento rápido.

Os receios que muitos condutores ainda expressam sobre a dependência exclusiva da eletricidade refletem-se também na própria evolução das regras europeias de controlo de emissões.

O debate europeu sobre a eventual flexibilização das metas de emissões, incluindo propostas de redução de 90% até 2035, são encaradas por muitos analistas como um reconhecimento de que a transição para uma mobilidade totalmente elétrica exige etapas intermédias e uma infraestrutura robusta que ainda está em construção.

A estratégia da indústria automóvel

Para os construtores automóveis, os híbridos plug-in funcionam também como uma estratégia pragmática nesta fase de transição. A produção de veículos elétricos puros exige baterias de grande capacidade e matérias-primas que estão a ser disputadas globalmente, elevando os custos e a complexidade de produção.

Já os híbridos plug-in permitem baterias de menor capacidade e, em muitos casos, a utilização de químicas mais económicas como as de fosfato de ferro-lítio (LFP). Razões que permitem diminuir tanto o custo inicial como o total de propriedade destes veículos, assegurando, ao mesmo tempo, uma redução substancial nas emissões face aos motores convencionais.

É também uma forma de muitos construtores aumentarem substancialmente a percentagem de modelos “eletrificados” nas suas gamas, sem as exigências totais associadas aos veículos 100% elétricos.

Uma transição energética faseada

Alguns responsáveis de entidades reguladoras e operadores de redes têm sublinhado a importância desta evolução faseada.

Em Portugal, responsáveis do setor elétrico têm alertado para o mesmo desafio. Em maio de 2025, o presidente da E-Redes afirmou em entrevista à Lusa que os recentes incidentes de fornecimento foram um “alerta claro” para a necessidade de reforçar o investimento nas redes elétricas, sublinhando que a eletrificação crescente da economia, incluindo a mobilidade elétrica, exige infraestruturas mais robustas e resilientes.

Estudos académicos e relatórios internacionais reforçam que a transição para uma mobilidade totalmente elétrica é um objetivo desejável, mas que isso tem de passar por investimentos significativos em redes inteligentes e em sistemas de armazenamento de energia. Este é um ponto crítico: as infraestruturas terão de ser capazes de acomodar os picos de carga associados ao carregamento massivo de veículos elétricos.

E esses picos poderão surgir precisamente quando hoje a procura é menor: durante a noite, num cenário que poderá inverter os padrões de consumo energético que têm dominado até agora.

O interesse crescente dos europeus pelos híbridos plug-in pode, assim, ser interpretado não apenas como resultado de preferências individuais ou de circunstâncias locais, mas também como uma abordagem pragmática à transição energética na mobilidade. Reduzir as emissões de CO₂ e outros poluentes associados aos motores de combustão é uma prioridade incontornável, mas essa transformação não pode ignorar as necessidades reais dos utilizadores nem comprometer a liberdade de mobilidade individual que continua a ser central nas sociedades europeias.

É um caminho intermédio que reduz emissões, introduz milhões de condutores às vantagens dos veículos eletrificados e dá tempo às infraestruturas e aos mercados para evoluírem de forma mais sólida e sustentável. E embora o objetivo final de uma mobilidade completamente descarbonizada continue a orientar as políticas públicas, parece existir uma compreensão crescente de que caminhos intermédios, como os híbridos plug-in, desempenham um papel crucial nesta transição.

Autor

  • Rogério Lopes é jornalista e editor de Radar Automóvel. Com uma ligação de longa data ao setor automóvel, é especializado em gestão de frotas e mobilidade empresarial. Mantém contacto regular com gestores de frota e profissionais do setor, pois considera ser essa a forma certa de obter e partilhar conhecimento e as melhores práticas do mercado.

    Autor de variadíssimos textos e análises sobre o impacto das novas tecnologias e da fiscalidade nas escolhas das empresas, segue com atenção o setor automóvel em Portugal e no mundo, com especial interesse pela mobilidade sustentável.

    Sempre que está ao volante, privilegia a eficiência e a segurança, princípios que defende tanto na estrada como nos seus textos.

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