Mais do que nostalgia, o regresso dos botões físicos é uma questão de segurança

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Em Portugal, os números da sinistralidade rodoviária continuam a preocupar. Ano após ano, registam-se acidentes com vítimas em estradas urbanas e nacionais, muitos deles atribuídos ao fator humano.

Num contexto em que os automóveis modernos estão cada vez mais dependentes de ecrãs digitais, impõe-se uma pergunta incómoda e que tem algum sentido: quantos desses acidentes não terão tido origem em distrações provocadas pela interação com sistemas digitais, menus confusos ou pelo simples ato de desviar o olhar da estrada para procurar uma função num ecrã?

De facto, durante mais de uma década, a indústria automóvel seguiu quase cegamente o caminho da digitalização total: painéis dominados por ecrãs, superfícies lisas sem referências tácteis e a ideia de que tudo deveria ser controlado por toque. Funções básicas – como ligar o ar-condicionado, ativar o desembaciador ou mudar de estação de rádio – passaram, em muitos casos, a exigir atenção visual e navegação por menus.

Tornaram-se menos intuitivos. Mais difíceis de aceder sem perder o foco na estrada. E, em movimento, todos os segundos contam. E podem ser decisivos para prevenir ou evitar um acidente.

Quando a segurança se sobrepõe à “tendência”

É neste contexto que o regresso dos botões físicos deixa de ser uma curiosidade e passa a assumir um significado muito mais sério.

O mais interessante é que este regresso já não é feito com constrangimento. Algumas marcas começam mesmo a apresentá-lo como um argumento positivo. Por exemplo, a Volkswagen reconheceu publicamente que foi longe demais na aposta exclusiva em ecrãs e iniciou uma inversão de rumo, visível nos seus novos modelos, como no caso do ID. Polo.

A Mercedes-Benz também decidiu seguir o mesmo caminho, anunciando a reintrodução de comandos físicos a partir de 2026, após analisar dados de utilização real. E marcas coreanas, como a Hyundai e a Kia, ou japonesas, como a Toyota, Honda e Nissan, estão a voltar atrás, com soluções híbridas que combinam telas digitais com comandos físicos.

Mas não se trata apenas de uma mudança de mentalidade dentro das marcas. Há também uma pressão externa clara: o Euro NCAP.

O impacto do Euro NCAP a partir de 2026

A partir de 2026, o Euro NCAP vai passar a avaliar de forma direta a Interação Homem-Máquina (HMI). Ou seja, não basta um automóvel proteger bem os ocupantes num embate: será igualmente avaliado o modo como o condutor acede às funções essenciais durante a condução.

Carros que concentrem comandos fundamentais, como luzes, climatização, rádio, desembaciadores ou sistemas de emergência, em menús digitais profundos serão penalizados. Quanto mais passos forem necessários para executar tarefas simples, pior será a classificação. Em sentido inverso, comandos físicos claros, com feedback tátil e localização fixa, serão valorizados.

A lógica é simples: reduzir a distração e permitir que o condutor atue quase por instinto, sem ter de “pensar” onde está um comando ou confirmar visualmente cada ação.

Quem pode sair penalizado?

Contudo, esta nova abordagem levanta também questões incómodas para alguns fabricantes.

Marcas chinesas, que têm apostado fortemente em interiores dominados por ecrãs e informação digital, poderão enfrentar penalizações se não ajustarem a sua filosofia de interface. O mesmo se aplica a marcas europeias integradas em grandes grupos chineses, como a Volvo, que sempre construiu a sua reputação em torno da segurança.

E depois há a Tesla, talvez o exemplo mais extremo desta tendência. A eliminação quase total de botões físicos e a substituição de comandos tradicionais – como a haste dos piscas – por botões táteis no volante, pode ser vista como inovação, mas também como um risco claro do ponto de vista da distração.

Com os novos critérios do Euro NCAP, este tipo de experimentalismo poderá deixar de ser neutro em termos de avaliação. Não é um recuo tecnológico, é uma correção.

Convém deixar claro: isto não parece ser o fim dos ecrãs nem da tecnologia digital nos automóveis. Antes, um ajuste de prioridades. Ao contrário do que diz o chavão, o automóvel não é um telemóvel sobre rodas, e a condução não permite a mesma margem de erro que o manuseamento de um smartphone lento, com menus complicados ou um ecrã menos sensível..

Por isso, o regresso dos botões físicos não é um gesto nostálgico, nem um capricho de condutores “à antiga”. É uma resposta baseada em dados, em comportamento humano e, acima de tudo, em segurança. Numa altura em que se discute tanto a redução da sinistralidade, talvez seja tempo de aceitar que, em certos momentos, a solução mais simples continua a ser a mais segura.

NOTA FINAL

Voltando à realidade nacional, não existem dados concretos que liguem diretamente acidentes em Portugal ao uso de comandos digitais nos automóveis. Mas ignorar esta questão seria ingénuo. A distração ao volante é um fator reconhecido e os próprios estudos internacionais mostram que interfaces exclusivamente digitais aumentam o tempo em que o olhar se afasta da estrada.

A pergunta, por isso, não é exagerada: quantos acidentes poderiam ter sido evitados se certas funções estivessem acessíveis de forma imediata e intuitiva, sem recorrer a menus?

Autor

  • Rogério Lopes é jornalista e editor de Radar Automóvel. Com uma ligação de longa data ao setor automóvel, é especializado em gestão de frotas e mobilidade empresarial. Mantém contacto regular com gestores de frota e profissionais do setor, pois considera ser essa a forma certa de obter e partilhar conhecimento e as melhores práticas do mercado.

    Autor de variadíssimos textos e análises sobre o impacto das novas tecnologias e da fiscalidade nas escolhas das empresas, segue com atenção o setor automóvel em Portugal e no mundo, com especial interesse pela mobilidade sustentável.

    Sempre que está ao volante, privilegia a eficiência e a segurança, princípios que defende tanto na estrada como nos seus textos.

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